Não são só memórias. São fantasmas, que me sopram nos ouvidos coisas que eu...

05
Jan 10

 Meus dedos tamborilavam na mesa, esperando que o baralho virtual desse as cartas, começando assim, mais uma partida de Paciência. Jogava contra mim mesma, contra minha solidão, contra a incerteza, que me assombrava.

 

A música soava, a mulher cantarolava. “Eu não tenho muita coisa pra dizer, eu não tenho o mundo pra te dar”. Ora, que coisa mais contraditória. Tinha muita, muita coisa pra dizer. Tantas palavras de amor, e pedidos de desculpa enroscados na garganta, mas que não sairiam de lá tão cedo.

 

Você está tão feliz. Mesmo estando longe, eu sinto seu sorriso ao me contar que conheceu uma garota especial, que a sua equipe ganhou o campeonato. Que o seu time venceu o Brasileirão. Mesmo que o meu tenha que perder para que isso aconteça, eu prefiro assim. Você, feliz.

 

Faz-me feliz, e rasga meu coração ao mesmo tempo. Como isso é possível? Quem há de saber? As feridas estão expostas, e por mais que o álcool as desinfete, faz com que arda o triplo. O que fazer? Jogar o álcool, fazendo com que ardam mais do que um dia alguém pode imaginar, mas ver o fim do sofrimento, após o ardor; ou continuar a viver com essa dor;  uma dor de amor?.

 

Um dia me disseram, que os corações se ligam, corroem barreiras, e enfrentam estradas quando querem. Os nossos queriam. O que houve? Que barreira foi essa, capaz de te fazer desistir? Por que não esperar, e tentar de novo amanha? A resposta é óbvia. Desistir é tão mais fácil. Rápido. Prático. Quase um ato heróico. “Muito bem, meu filho. Tem que gostar de quem mora perto. Não de uma ‘zinha’ que você nem sabe se realmente existe”. Posso ouvir sua mãe repetindo isso na sua cabeça, e me matando dentro do seu coração, cada vez mais, com uma facada mais profunda.

 

“Você está bem?” Insiste em repetir a perguntar a cada dia. “Estou, meu bem. E você?” Estou, sim. Estou corroída por dentro. Machucada. Não bem. Bem? Não é hora pra piadas!

 

A chuva cai lá fora, o rapaz canta “Como é possível você me ter nas mãos e me deixar escapar?”. É verão de novo. Os casais saem à tardinha para caminhar e tomar sorvete. Os solteiros saem com os amigos para um barzinho qualquer. Mas eu estou aqui. Sem barzinho, sem sorvete, sem você.

 

Queria perguntar como teve coragem, o porquê de ter feito o que fez. Mas as palavras se enroscam e abraçam cada vez mais forte minha garganta. Não saem. Nada sai, nada entra. O ar não entra. A visão se diluiu cada vez mais. Pontos pretos aparecem, e aumentam em um ritmo intenso.  

 

Acabou, e você não ouviu o que eu tinha pra dizer. Não provou do amor que eu tinha para lhe oferecer. Provavelmente sente muito. Sente a porra. “Você está bem?” Vão te perguntar. E você vai se lembrar. Vai doer. Mas jogue logo a merda do álcool e acabe de vez com isso. Mate-me de uma vez em você. É o único lugar onde ainda sobrevivo.

publicado por Helen às 22:53
sinto-me: bem é que não é, né.
música: O Impossivel - Delittus

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