Não são só memórias. São fantasmas, que me sopram nos ouvidos coisas que eu...

13
Abr 09

Era só mais um cliente; só mais um tranza sem amor, sem sentimento algum. Ao menos, achei que fosse.

Ouvi três batidas fortes na porta de meu aposento, e gritei da poltrona vermelha na qual eu me encontrava agora ‘’Entra, está aberta!’’, como sempre costumei fazer. Um rapaz de cabelos pretos, médios, cujos fios trassavam uma briga por ocupar todo o espasso de sua testa, adentrou o quarto de hotel.

‘’Oi... erm, eu não sei o que dizer.’’Dizia o rapaz, sem jeito, ainda parado no pequeno espaço em frente a porta.

‘’ Se o seu motivo de vir até aqui, for sexo, não se acanhe. Venha cá, entre. E seu nome é...?’’Perguntei, levantando-me e indo até ele.

O homem murmurou algo que eu não consegui ouvir, mas como ele já estava envergonhado, resolvi não insistir. Fui direto ao ponto. Expliquei como seria, o preço a pagar, e a quantas horas ele teria direito. Me deu os 100 ‘pilas, e partimos logo pra tranza. E não é que o guri era acanhado só na entrada?

Em duas horas ele deixou o quarto, e pronto, tinha arrancado mais cem reais de um cidadão imbecil que muito provavelmente tinha acabado de levar um fora da sua mulher de dois anos de casados com a desculpa igual a de todas ‘’Achei um sete anos mais novo, desculpe. E, você fica com as crianças’’.

Em quinze minutos, o rapaz estava lá de volta: ‘’Com licença – ele disse, já tomando a liberdade e abrindo a porta – posso entrar?’’

‘’O que houve garoto? Não deu pro gasto? Não sei fazer melhor não...’’ Respondi na lata. Ah, o que era, vinha reclamar agora é?

‘’Não, claro que não. Quero dizer, foi ótimo, mas, agora eu vim pra conversar, será que tens um tempinho?’’Disse o guri, fazendo beicinho e sentando-se na beirada da cama de casal.

‘’Claro, diga, ahm, como é seu nome mesmo?’’Percebi seu rosto murchar ao ver que eu não tinha nem me importado com isso da primeira vez que batera a minha porta, mas continuei calada, disposta a ouvir.

Seu nome era Caio, tinha vinte e três, ou vinte seis, não ouvi muito bem. Morava em Quebec havia dois anos, e tinha vindo por, como eu imaginei, levar um ‘chute da namorada. Estava com problemas, sem ter um lugar pra ficar, e sim, passou pela minha cabeça chama-lo pra morar comigo, pelo menos até achar um lugar digno, mas decidi espera-lo acabar.

‘’Trabalho em uma loja de instrumentos musicais, e ganho quatro mil reais por mês com a venda de cocaina contrabandeada. Não tenho um lugar fixo por não poder ser encontrado, e pra cada ‘’amigo’’ eu digo que tenho um nome, mas esse é o real. Estou sendo chato, não?’’

‘’Na verdade, não está não. E a propósito, quer rachar o alugél?Quer dizer, não é uma coisa que eu costumo fazer, mas você me parece sem legal, mesmo com os mistérios escondidos dentro da manga, ou devo dizer entre as teclas de um teclado e cordas de violões?’’ Eu sorria tentadoramente, tentando ao menos ser –ou parecer, como preferir- amigavel.

‘’Oh, obrigado!’’Disse, ah, como era mesmo o nome? Ah, é, Caio.

Moravamos juntos a nove meses. Parei com os programas –pelo menos diminui para metade a frequencia- e comecei a trabalhar em um hospital, de enfermeira chefe. Minha tia-avó tinha conseguido o cargo pra mim, e claro, sou extremamente grata.

Caio passava o dia todo na rua; hora na loja, hora no barracão, organizando as vendas e mentindo seu nome. Nos encontravamos a noite, jantavamos, e dormiamos, ele no pequeno sofá de dois lugares, e eu na cama, quase ao lado devido ao tamanho do apartamento, ou devo dizer ‘apertamento?

‘’Olá querida.’’ O meu menino adentrara o quarto-e-sala, com a pasta preta de sempre nos braços. ‘’Como foi hoje no hospital?’’
Descrevi o meu dia, enquanto colocavamos a mesa, ou melhor, a cama, já que não cabia uma mesa naquela porcaria.

‘’Ahm, querida, temos de conversar.’’

‘’Claro Caio, diga.’’ Disse sorridente, enquanto tentava manobrar os hashis entre meus dedos.

‘’Vou me mudar, e vou me casar. Não vai durar pra sempre, tenho certeza, mas não dá pra viver por muito tempo na casa de alguém qual eu conheci atravéz de uma noite de programa. Desculpe, querida, não é nada contra você, ou sua casa, ou suas profissões, não, você sabe que não, mas eu me apaixonei, mesmo que seja fogo de palha, eu sinto algo. Desculpe, de verdade.’’Colocou o prato na pia, pegou d evolta a pasta, deu-me um beijo estalado e saiu correndo pela porta, pela qual provavelmente jamais entraria novamente.

Meu coração estava como aquele ‘Doritos, que você comeu no intervalo do colégio, e um deles foi ao chão, e por consequencia, foi pisoteado, esmagado e triturado. É assim que estava, triturada.

Passei uma das mãos pelas minhas bochechas, e senti-as molhadas. Lágrimas. Pela primeira vez, eu estava a chorar por um homem. Um homem que eu não conhecia a nem um ano. Não podia ser outro? Algum que fosse correr atrás de mim, ou algo assim? Mas não, tem que ser o único, excluisvo botinão que não está nem ligando.

Em um movimento joguei as comidas pra fora da cama, e me agarrei ao travesseiro, ainda com lágrimas escorrendo. Droga, dá pra parar? Tive a minha resposta. Não, não dava.

Os dias passavam, e agora só restavam-me olheiras e enxaquecas. Tinha largado de vez o mundo da prostituição; só ele me satisfazia, faltava aos plantões do hospital para ficar em casa, dormindo. Não tinha forças, não tinha um por quê.

Quinze de Maio, tive a certeza de que ele não voltaria assim que li o anuncio de seu casamento no jornal, e seu nome agora era Robert. Eu não tinha chences, ao menos esperanças.

Engatinhei até o criado-mudo, ao lado da cama, e abri a terceira e última gaveta, retirando-a de lá. Observei-a por cerca de meia hora, maravilhada com o reflexo da luz do abajour em sua lâmina. Passei com pouca força e vontade os dedos –polegar e indicador- pelo seu fio, percebendo que estava afiada o suficiente.
Peguei depressa um bloquinho de anotações e uma caneta, e rabisquei algumas palavras. Deixei-os sobre a cama, voltando a segura-la com força em minha mão direita.

Respirei fundo, e então o fiz. Só se ouvira um unico grito, que logo se perdeu com o vento. Encontrava-me caida sobre a cama, com a faca transpassando o meu pulmão esquerdo. Adeus vida, adeus Caio.

 

Uma viagem cheia de turbulências essa até o meu destino final, e pelo que entendi, parei no meio, mas como meu ultimo pedido, pude ver o que estava acontecendo com meu menino, e ele estava lá, ajoelhado aos pés da cama, com o bilhete em qual rabiscara ‘’Desculpa. Eu te amo, Caio.’’ em suas mãos, e chorava desesperadamente. Entre soluções ouviam-se pequenos gemidos, que repetiam a mesma palavra, varias vezes; ‘’Volta, meu amor, volta.’’ Ele repetia, incansavelmente.

Eu queria voltar, pedi pra voltar, mas disseram que eu já tinha perdido o meu pedido. Era tarde, eu não o teria de volta como naquela noite, não teria seu cheiro em meu travesseiro, nem seu gosto na minha caneca. Não teria mais nada agora, eu não queria ter mais nada.

 

 

Créditos; Camila Módolo Angelelli

publicado por Helen às 22:40
sinto-me: Dor de cabeça, ai :$
música: Rosas - Ana Carolina

Abril 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
14
15
16
17
18

19
20
22
23
25

26
27
28
29
30


arquivos
mais sobre mim
pesquisar
 
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

blogs SAPO