Não são só memórias. São fantasmas, que me sopram nos ouvidos coisas que eu...

11
Mai 09

(Só pra fazer voluminho. É um texto que eu escrevi na sexta série, então, deem um desconto.)

 

Mas um dia como outro qualquer. Era incrivel como eles eram tremendamente iguais. O relógio da praça marcava sete horas, eu teria de correr se quisesse pegar a padaria aberta.

Dona Alzira provavelmente me esperaria, como faz todos os dias, a quatro anos, desde que entrara naquele empregozinho mequetrefe, pra trabalhar o dia todo e ganhar um mizero sálario mínimo. Ainda tinha que chegar em casa e dar comida ao José, a Ana e Katarina. Katarina é a minha esposa; quer dizer, não casamos – faltou dinheiro -, então somos ‘amigados’ como diria a senhora minha mãe, que Deus a tenha. Ana e José são novos ainda; Ana tem cinco, e Zé tem dois a menos. São meus filhos, que pra ser sincero, só dão gastos, mas é tarde pra reclamar.

A padaria estava aberta. Ótimo, pensei comigo.

- Noitê! –disse animado, adentrando o local.

- Boa noite Seu Pedro. O de sempre? – disse a velha de cabelos brancos atrás do balcão. Assenti.

Peguei um jornal que estava em cima da prancha de mármore, e comecei a ler as manchetes. Não tinha muita paciência para ler inteiro, sabe como é, meu dia era corrido, não sobrava tempo pra ler. Na primeira página dizia que a minha fábrica ia entrar em greve. Quer dizer, minha não, mas, era a fábrica em que eu trabalhava, infelizmente.

Talvez eu fisesse a tal greve, quem sabe o Seu Nicolau não resolveria pagar um salário de gente? Porque, aquilo era dinheiro de bicho; dinheiro que na verdade eu mau via a cor. Vinha num dia, e no outro dia, cadê? Não via mais nada, até o mês que vem. A parte boa de morar no alto do morro era não ter que pagar luz e telefone; telefone, a gente não tinha mesmo, não tinha nem porque comprar o aparelho, pois não tinhamos pra quem ligar. Luz, de dia, o sol estava lá, de graça, bom e todo bonitão; de noite, ora, de noite é ora de dormir, e não de enxergar! Mas se ficasse em casa, Kata ia me pôr pra trabalhar, e fazer com que eu terminasse a gambiarra da antena do vizinho. Até que não ia ser tão dificil assim, e ia aproveitar para dar a ela como presente de aniversário, que eu nem sabia mais quando era. Se bobiar já tinha até sido, tanto faz, se duvidar nem ela sabe. Ruim das greves é que não recebemos, e ai? Quem é que bota comida na boca de todo esse povo? Quem é que vai pagar a D. Alzira?

Vai que Seu Nicolau resolvia, ao invés de aumentar nosso salário, nos demitir? Era melhor ficar lá mesmo, pelo menos era renda (renda? Tava mais pra trapo) garantida.

Peguei o pão, e voltei pra casa.

No dia seguinte, quando cheguei no emprego, vi que a fábrica tava fechada, e seu Nicolau esperava no portão.

- Manoel, eu quero mesmo falar com você. A produção tá diminuindo, ‘nóis tamo vendendo menos, e não vai dar pra pagar todo mundo não. ‘Cê tá na rua. Quando der uma vaginha, ‘nóis ‘bota o ‘cê aqui dentro de novo, mas agora não dá não. Brigado, viu? Depois ‘cê passa lá no escritório, prá ‘nóis acertá as conta. Tchau.

 

publicado por Helen às 23:41
sinto-me: Idiota :D
música: Everything - Lifehouse

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